27/03/2021

A obra de relojoaria do Mercado do Bolhão prossegue com todos os ponteiros acertados para a sua reabertura na segunda metade do ano. Túnel construído, fachadas restauradas, remodelação integral da cobertura concluída e uma cave em fase de execução. Cerca de 120 trabalhadores dedicados à empreitada que vai devolver o histórico equipamento à cidade, tornando todo o quarteirão numa referência alimentar não só para o Porto como para toda a Região Norte.


Por fora da obra, em tela para toda a gente ver, os rostos que cabem lá dentro; expectantes pelo regresso que se encurta a cada dia que passa. No interior, uma azáfama miudinha que não cessa, um vaivém de homens, máquinas, sons monocórdicos que estalam em cadência repetida, e que denunciam as várias frentes de trabalho.


As duas principais desenrolam-se ao nível do terrado e debaixo dele. À superfície, impermeabiliza-se a laje, colocam-se os pilares para as bancas, prepara-se o pavimento. E, para além do que se consegue ver – a não que se desça por umas improvisadas escadas, como fez Rui Moreira na mais recente visita à obra – outra empreitada em curso, com a missão de construir uma cave em terreno outrora pantanoso, fazendo crer que projetos como este seriam autênticos aventureirismos, por mais que ciência e engenharia se alinhassem.


A cave logística é efetivamente a grande novidade da obra de restauro e modernização do Mercado do Bolhão. Vai ocupar o miolo do edifício com câmaras frigoríficas, armazéns, produção de gelo, e com espaço destinado às cargas e descargas. Contempla ainda uma zona de balneários e outra de separação e tratamento dos resíduos. Aliás, a parte da “modernização” cabe praticamente toda nela, mais no túnel que lhe dá acesso. Já lá vamos.


Pela cave há ainda uma série de considerações a fazer, explicadas durante a visita à obra por Cátia Meirinhos, administradora executiva da empresa municipal GO Porto, gestora da empreitada. O método construtivo foi recentemente alterado, depois de longos meses de espera para a respetiva autorização. Para se ter uma ideia do quão moroso seria se se mantivesse a anterior metodologia, imagine-se o que era realizar, como estava previsto, escavações de meio metro ou de um metro – à vez – e por cada passo destes ter de se montar uma nova estrutura metálica para suster as terras.


Resolvida esta questão com a aprovação da alteração do método construtivo, os trabalhos na cave recuperaram o tempo perdido. A solução passou por fazer a contenção através de centenas de estacas ao longo de todo o perímetro do terrado, permitindo concretizar a escavação a dois metros de altura, e avançar com a construção da laje à superfície. Ação fundamental para desdobrar a obra do Bolhão em duas frentes de trabalho autónomas e simultâneas: ao nível da escavação da cave, que já retirou mais de 30 mil metros cúbicos de terras, e ao nível das infraestruturas do terrado. Por conseguinte, duplicaram-se o número de trabalhadores, de 60 para 120.



Emergindo novamente, à volta há muito mais a acontecer. O passadiço central, com a nova ligação direta entre as ruas de Sá da Bandeira e de Alexandre Braga, já foi colocado. As lajes da galeria superior, somente as que foram demolidas por não terem condições para serem preservadas, porque o betão estava em muito mau estado, estão a ser reconstruídas integralmente seguindo – sem tirar nem pôr – o desenho original (chama-se repristinio a esta fotocópia). E, por todo o mercado, há trabalhos de carpintaria em curso: em vários compartimentos faz-se o revestimento com azulejos; para as lojas exteriores testam-se protótipos de toldo, ao passo que no interior do terrado se faz idêntico exercício para as coberturas das bancas.


Dentro da obra, também há obra feita. A cobertura, com uma área total superior a 5.500 m2, foi toda remodelada, o que envolveu o revestimento integral em ardósia e a recuperação e reforço da estrutura de madeira original, assim como o tratamento de todo o gradeamento metálico das cumieiras. Concluída está, ainda, a recuperação de todas as peças e adornos das fachadas, nomeadamente dos florões (186) e dentilhões (420). De igual modo, cerca de 70 caixilharias, cada qual com dimensões diferentes, foram recuperadas em ferro fundido, tal como as primeiras ali colocadas. O reboco original da fachada foi também cuidadosamente recuperado, nos seus mais de 8.500 m2, estando igualmente à vista de quem passa, até mesmo nos portões, a pintura original do mercado, que se tinha perdido entre sobreposições de cor ao longo de décadas.


Este trabalho, que o presidente da Câmara do Porto pôde acompanhar na visita geral que fez ao Mercado do Bolhão no início de junho de 2020, está efetivamente finalizado.


Orçada em cerca de 22,3 milhões de euros, a obra de restauro do Bolhão é concretizada pela ACE – Lúcios & ACA, vencedora do concurso público internacional lançado pela Câmara do Porto.


Túnel do Bolhão está concluído


A obra do túnel do Bolhão, com entrada pela Rua do Ateneu Comercial do Porto, está concluída. Portões abertos, um para a entrada e outro para a saída das cargas e descargas, foi o último ponto de passagem na mais recente visita de Rui Moreira ao local. Um caminho a percorrer ao longo de 120 metros de percurso, sustentados por 750 toneladas de aço e 3.500 m3 de betão. E uma obra de engenharia que desafiou olimpicamente todas as vicissitudes, e que, mesmo assim, foi concretizada em 18 meses.


Apesar de já existirem caves por baixo dos dois prédios que dão acesso ao túnel, o que facilitou a entrada das máquinas, tudo o mais foi obra de arte e engenho. Como informa a GO Porto, foi criada uma estrutura alternativa de suporte aos prédios, para garantir a estabilidade. Tratou-se literalmente de suspender os dois imóveis, permitindo manter em funcionamento uma farmácia e a IPSS Associação Beneficência Familiar.


O túnel propriamente dito desenvolve-se a 10 metros à cota inferior dos arruamentos das ruas da Formosa e de Alexandre Braga. Seria quase inocente pensar que a escavação não reservaria surpresas. A rocha encontrada e – novamente a água –, criaram grandes constrangimentos ao andamento dos trabalhos. Por outro lado, o arranque da obra, que estava prevista iniciar pela Rua de Alexandre Braga, teve de ser alterado (isto porque, nesta artéria, decorriam escavações segundo o método mais moroso, precisamente aquele que se conseguiu alterar para construir a cave logística do Bolhão em tempo útil).


A juntar a estes reveses, também o método construtivo do túnel do Bolhão foi modificado. Em vez de estruturas de contenção, partiu-se para a colocação de estacas, cerca de 200, ao longo do caminho. Na Rua Formosa e de Alexandre Braga o túnel foi, por isso, construído a céu aberto, com todas as cautelas.


A intervenção implicou, ainda, a reabilitação das infraestruturas existentes, que tiveram de ser deslocadas e já se apresentavam bastante degradadas, nomeadamente águas pluviais, saneamento, abastecimento de água, telecomunicações, gás, entre outras redes.


Neste momento, falta apenas a pavimentação final do túnel, concluir o acesso à cave do Mercado do Bolhão, entre outras pequenas finalizações de obra.


No total, passaram pela obra conduzida pelo empreiteiro Teixeira Duarte 340 trabalhadores. O valor de adjudicação da empreitada do túnel do Bolhão foi de 4,3 milhões de euros.


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